SÍNDROME CÓLICA

INTRODUÇÃO

           A Síndrome Cólica ou abdome agudo nos equinos, é caracterizada por manifestação de dor abdominal, que pode envolver qualquer órgão do trato gastrointestinal, bem como os órgãos adjacentes a ele. É a principal enfermidade que acomete os equinos podendo, dependendo do caso, evoluir ao óbito. Diversos fatores anatomofisiológicos do aparelho digestório do cavalo contribuem para manifestação dos distúrbios clínicos da síndrome cólica, bem como: a ausência do centro do vômito no Sistema Nervoso Central, a força da musculatura do cárdia que não permite refluxo  a angulação entre cabeça e pescoço que dificulta o retorno de conteúdo para a boca, fatores que, combinados, impossibilitam o cavalo vomitar; o extenso intestino delgado proporcionando as intussuscepções, ectopias e vólvulos; e as curvaturas do cólon que favorecem a formação de compactações.

           Este complexo conjunto de doenças podem ser classificado em dois grupos: o primeiro são as cólicas ditas como “verdadeiras”, ocasionadas por problemas que afetam o estômago ou os intestinos (delgado e grosso), responsáveis por mais de 95% dos casos; e cólicas “falsas” causadas por alterações nos demais órgãos da cavidade abdominal (fígado, pâncreas, baço, rins, bexiga, útero, entre outros) afetados em menos de 5% dos casos.

A dor nas cólicas verdadeiras é causada de maneira geral por aumento da pressão na luz intestinal (devido a distensão), contrações espásticas ou de alterações inflamatórias do tubo digestivo. Essas situações anormais podem, do ponto de vista patogênico, ser causadas por uma inibição da passagem intestinal (obstruções) ou fermentações indesejadas (gases, ácido ou toxinas) (FAGLIARI; SILVA; 2002).

 

           Para o médico veterinário, se faz necessário o conhecimento da etiologia e dos sinais clínicos, da síndrome cólica para execução de um diagnóstico preciso seguido de eficiente intervenção terapêutica e resolução imediata do quadro.

ETIOLOGIA

         As cólicas na maioria das vezes têm etiologia multifatorial, sendo difícil apontar uma única causa em todos os casos. Exemplos de causas conhecidas são: parasitas, especialmente Strongylus vulgaris e ascarídeos; excessos alimentares; mudanças na dieta; ingestão de areia; enterólitos; e alguns agentes infecciosos como a Salmonella spp (PEDROSA; 2008).

         Clinicamente, a causa da Síndrome Cólica é idiopática, mas a evolução da enfermidade em sua grande maioria, está relacionada com distensão dos segmentos gastrointestinais, e nos casos mais severos, infarto do órgão.

Alimento farelado, um dos principais responsáveis pelas cólicas por fermentação excessiva

FATORES PREDISPONENTES

      Apesar da síndrome cólica ter seu desenvolvimento originado de vários fatores, temos algumas condições que aumentam as chances da ocorrência dessa enfermidade, por exemplo:

Manejo nutricional: o excesso de concentrados em relação à alimentação forrageira tem sido considerado como fator de risco para a cólica. Como sabemos o alimento concentrado (ração) é composto principalmente de carboidratos não estruturais, ou seja, alimentos com alta capacidade de fermentação (produção de gás) podendo gerar distensão do estômago ou das alças intestinais e provocando a cólica. O consumo de material farelado que, por sua apresentação em pó, possui uma capacidade fermentativa altíssima aumentando muito a probabilidade de formação excessiva de gás e, consequentemente, provocar as cólicas. Capim e feno de má qualidade, forragens com talos muito grossos ou de idade muito avançada, bem como o feno excessivamente seco e velho (rico em lignina), além de não serem bem absorvidos, podem provocar processos obstrutivos. Além disso, o consumo insuficiente de água contribui para a má hidratação do alimento ingerido que, estando ressecado, pode levar a formação de compactações.

 

       Afecções dentárias: O desgaste incorreto dos dentes pode gerar lesões nas bochechas ou falhas de contato entre os dentes o que vai resultar em mastigação ineficiente. Além do baixo aproveitamento nutricional, a ingestão de alimento mal mastigado também pode levar à cólica devido ao acúmulo de partículas de alimentares muito grandes no intestino.

 

        Manejo inadequado: os cavalos estabulados estão em maior risco de desenvolverem cólica do que aqueles criados em regime extensivo (TINKER et al., 1997). Animais que não praticam atividade física, ou com modificações não graduais na quantidade de trabalho também estão mais predispostos a este tipo de problemas.

SINAIS CLÍNICOS

   O primeiro sinal clínico frequentemente perceptível é uma notória agitação. O animal passa a cavar o chão, deitar e levantar repetidas vezes, escoicear o ventre, olhar o flanco constantemente, e a rolar no chão, além de “brincar” com a água. Os machos expõem o pênis sem urinar, ou até mesmo, urinam mais frequentemente e em pequenas quantidades, o que muitas vezes é interpretado pelos leigos como um problema urinário, a famosa “cólica renal”. 

       Dependendo da causa de base, na etapa inicial a dor possui intervalos, não sendo contínua, podendo durar cerca de 10 minutos, com intervalos de relaxamento. Nos casos mais críticos, a dor é sempre ininterrupta e acrescenta-se sinais de choque, sudorese excessiva, taquipnéia e movimentos involuntários.

      De acordo com a apresentação do animal, há possibilidade de elucidar a causa da dor imediatamente, como a exemplo da presença refluxo espontâneo nas narinas, identificando-se um sinal grave que sugere distensão gástrica severa.

       Nos casos que o animal ainda está defecando, é importante inspecionar as fezes, a fim de verificar a presença de muco, vermes, fibras longas, grãos inteiros, sangue, entre outros achados que podem auxiliar a orientação do diagnóstico.

     As variações da frequência cardíaca e peristaltismo intestinal, bem como os demais sinais vitais devem ser monitorados de hora em hora.

Animal escoiceando o a barriga, demonstrando dor abdominal

Animal rolando, como sinal de dor abdominal severa

Fezes com presença de grãos inteiros e fibras longas

TRATAMENTO

       Por se tratar de um conjunto de doenças de causas e consequências bastante variáveis, a síndrome cólica tem diversas formas de tratamento de acordo com sua causa inicial. A terapêutica pode variar de uma simples lavagem gástrica até tratamentos cirúrgicos complexos que exigem abertura e/ou retirada de segmentos intestinais. Saiba mais em nosso outro texto sobre o assunto

PREVENÇÃO

           Alguns métodos profiláticos podem ser tomados para evitar o acontecimento da síndrome cólica. O manejo alimentar e sanitário de cada animal reduz a possibilidade de ocorrência da enfermidade nos equinos.

Ÿ  Medidas corretas de manejo nutricional: ter atenção quanto a qualidade do alimento oferecido, tanto concentrado quanto volumoso; ser rigoroso com o horário dos tratos. Atentar-se também a quantidade oferecida para o animal, visando a necessidade nutricional e a proporção adequada. Manter água limpa e fresca sempre disponível, principalmente em épocas mais quentes.

 

Ÿ  Medidas corretas de manejo sanitário: rotação de princípios ativos e vermifugação estratégica, reduzem as chances de cólicas por obstrução e tromboembolismo verminóticos.

 

Ÿ  Tratamento odontológico periódico: afim de promover uma adequada trituração do alimento e, assim, reduzir a chances de processos obstrutivos.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

FAGLIARI, J.J.; SILVA, S.L. Hemograma e proteinograma plasmático de equinos hígidos e de equinos acometidos por abdômen agudo, antes e após laparotomia. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.54, p.559-567, 2002.

 

PEDROSA, A.R.P.A. Cólicas em Equinos: Tratamento Médico Vs Cirúrgico – Critérios de Decisão. 2008. Dissertação (Mestrado em Clínica Médica de Equinos) - Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2008.

 

TINKER, M.K., WHITE N.A., LESSARD P., THATCHER C.D., PELZER K.P., DAVIS B., & CARMEL D.K. Prospective study of equine colic incidence and mortality. Equine Veterinary Journal, v. 29, n. 6, p. 448-453, 1997.

 

BERMEJO, V.J.; ZEFFERINO, C.G.; JUNIOR, J.M.F.; SILVÉRIO, M.R.; PRADO, F.R.A. Abdômen Agudo Equino (Síndrome Cólica). Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária. v.6, n. 10, 2008.

AUTORIA

Érica Dias Pereira Barboza - Graduanda em Medicina Veterinária - Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Murillo Martinez Matheus - Mestrando em Cirurgia Veterinária - FMVZ - USP 

 

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