TRATAMENTO DA SÍNDROME CÓLICA

INTRODUÇÃO

               Anteriormente publicamos um texto sobre a síndrome cólica em equinos, abordando suas principais causas, sinais clínicos e prevenção. Todos esses fatores são comuns, e podem ser aplicados a praticamente todos os tipos de cólica, o que não ocorre com o tratamento. Por se tratar de uma ampla variedade de afecções distintas, a Síndrome cólica exige um tratamento específico para cada tipo de doença que acomete o trato gastrointestinal dos equinos. 
 

         Quando o médico veterinário realiza as técnicas semiológicas de maneira adequada é possível classificar as possíveis causas de cólica em duas grandes categorias que são: processos obstrutivos, aqueles em que há interrupção da passagem de alimento em algum ponto do trato gastrointestinal; e processos estrangulativos, aqueles em que há também bloqueio a chegada de sangue em algum segmento intestinal. Fora destes dois grupos restam algumas condições que também são possíveis diagnósticos para o paciente com cólica como por exemplo, a dilatação gástrica, a duodenojejunite proximal e a cólica espasmódica. Conseguir identificar algum desses possíveis diagnósticos a partir dos sinais clínicos e achados do atendimento emergencial, é o primeiro passo para instituir um tratamento adequado.

Dilatação gástrica

   Alteração causada principalmente por erros de manejo, provocam acúmulo de gás ou líquido (ou mais raramente sólido) e levam a distensão gástrica e consequentemente a dor intensa. Os casos de dilatação gástrica devem ser tratados com extrema urgência. Vista a impossibilidade desta espécie em vomitar, e o pequeno volume do estômago frente ao tamanho do animal, é sempre grande o risco de ruptura gástrica o que provoca o extravasamento de conteúdo alimentar para o peritônio e morte em poucas horas, sem opção terapêutica. 

   

   O tratamento da dilatação gástrica se dá pela sondagem nasogástrica e posterior lavagem gástrica que vai resultar na descompressão do estômago e retirada do alimento que está provocando a cólica. Este procedimento deve ser obrigatoriamente realizado por um médico veterinário, o único profissional habilitado para tal, devido aos riscos envolvidos na técnica. É importante lembrar que apenas o profissional devidamente treinado é capaz de realizar o procedimento de sondagem nasogástrica.

Duodenojejunite proximal

Conteúdo gástrico durante procedimento de lavagem.

  Doença de origem inflamatória do intestino delgado, geralmente provoca parada do funcionamento do órgão e sequestro de grande quantidade de líquido para a luz do mesmo, o que resulta em importante grau de desidratação. Este líquido em excesso no lúmen intestinal tem tendência a refluir para o estômago provocando distensão e consequentemente dor. Nestes casos mesmo após a lavagem gástrica não se deve retirar a sonda e sim usá-la para retirar o refluxo periodicamente. Além disso, é importante realizar fluidoterapia intensa, além de reposição de íons fortes como cálcio e potássio. Pensando em combater as causas da doença devem ser utilizados anti-inflamatórios e na maioria das vezes antibióticos. É também indicado o uso de medicamentos pró-cinéticos que irão auxiliar a retomada da motilidade intestinal e possibilitar o avanço do conteúdo intestinal e, em consequência, a redução do refluxo enterogástrico.

Cólica espasmódica

      Este tipo de cólica é provocado pela contratilidade exagerada de um ou vários segmentos intestinais que por excesso de contração da parede provoca desconforto. Na maioria das vezes é auto limitante, ou seja, se soluciona sem necessidade de intervenção. Acredita-se que este tipo de cólica seja o grande responsável pela popularização das receitas caseiras para tratamento de cólica, as famosas garrafadas. Ao fazer um tratamento qualquer, sem efeito algum, os proprietários percebem melhora do quadro do animal, melhora esta que aconteceria sem tratamento algum, e a associam ao “tratamento milagroso”. É importante, no entanto, ressaltar que mesmo este tipo de alteração, se não avaliada por um profissional habilitado, pode evoluir para afeções mais graves como os processos obstrutivos e estrangulativos.

Processos Obstrutivos

Como já foi dito esta é uma categoria que agrupa várias afecções, todas elas com o mesmo caráter de interromper a passagem de alimento em algum ponto do trato gastrointestinal. Essa obstrução pode ocorrer por compactações, ou seja, acúmulo de alimento ressecado que não consegue passar por um determinado segmento intestinal, corpos estranhos ou enterólitos. Também são comuns os deslocamentos, quando alguma porção do intestino sai de sua posição anatômica, formando alguma dobra que impede a passagem do conteúdo. Menos comuns, mas não raras são as obstruções causadas por infestação de vermes intestinais.

Compactações menores e com pouco tempo de evolução podem, na maioria dos casos, ser tratadas clinicamente, com hiper-hidratação (enteral e parenteral) e estímulo de motilidade. Já compactações grandes, firmes e com longo período de evolução, bem como as outras causas de obstrução devem ser abordadas cirurgicamente. Na maioria dos casos é necessária a abertura do segmento intestinal (enterotomia) obstruído e retirada do material responsável pela obstrução (alimento compactado, corpo estranho, vermes, etc), também chamada de lavagem. O intestino é então suturado e reposicionado.

      Compactações menores e com pouco tempo de evolução podem, na maioria dos casos, ser tratadas clinicamente, com hiper-hidratação (enteral e parenteral) e estímulo de motilidade. Já compactações grandes, firmes e com longo período de evolução, bem como as outras causas de obstrução devem ser abordadas cirurgicamente. Na maioria dos casos é necessária a abertura do segmento intestinal (enterotomia) obstruído e retirada do material responsável pela obstrução (alimento compactado, corpo estranho, vermes, etc). O intestino é então suturado e reposicionado.

Cólon maior exposto para realização de lavagem

Processos Estrangulativos

       Com certeza o tipo mais grave de cólica que o veterinário de equinos pode enfrentar. Neste grupo de doenças ocorre a interrupção não só de passagem de alimento, mas também de fluxo sanguíneo em algum segmento intestinal. Desta forma, esta parte do intestino deixa de receber oxigênio e pode sofrer necrose ao longo do tempo. Por conta disso o tempo de evolução é importantíssimo neste tipo de lesão. Quanto maior for o tempo de isquemia, maior será o segmento necrosado e pior será o prognóstico.

    O tratamento em todos os casos é obrigatoriamente cirúrgico. Na maior parte dos casos, quando nos deparamos com segmentos intestinais necrosados, são necessários os procedimentos de enterectomia e enteroanastomose, ou seja, a retirada da alça desvitalizada e a junção dos segmentos oral (anterior) e aboral (posterior) a ela.

Comparação do aspecto de alça de intestino delgado necrosada (esquerda) com alça sadia (direita)

Preocupações durante a cirurgia

        Sempre que se faz necessário abrir cirurgicamente o intestino, ou retirar um segmento dele, as suturas são uma questão delicada que envolvem algumas preocupações, entre elas:

- Capacidade de selamento: é importante certificar-se ao final da sutura que ela é capaz de impedir o extravasamento de conteúdo. Caso contrário, ocorrerá o extravasamento no período pós-operatório, o que infelizmente na grande maioria dos casos condena o paciente ao óbito.

 

- Manutenção do lúmen intestinal: é importante realizar a sutura de forma a reduzir o mínimo possível o diâmetro do lúmen intestinal. A redução de lúmen aumenta significativamente o risco de obstrução no local da sutura quando o animal volta a se alimentar. Neste caso o paciente voltar a apresentar cólica e pode, inclusive, necessitar de outra cirurgia para corrigir o problema o que afeta muito negativamente o prognóstico.

 

- Resistência mecânica: temos que lembrar que o local da sutura será submetido a passagem de alimento, ao movimento peristáltico e, algumas vezes, a distensão da alça por gás, por este motivo é essencial que a sutura seja resistente a todos estes desafios para que não ceda enquanto não se completa o processo de cicatrização. Novamente, a falha neste quesito resulta em extravasamento de conteúdo e na maioria das vezes resulta em peritonite e óbito.

 

- Quantidade de material exposto: apesar dos fios de sutura serem considerados inertes, já é sabido que o excesso de material de sutura exposto na cavidade, gera abrasão entre as alças o que favorece a formação de aderências. As aderências também têm o potencial de obstruir o fluxo de conteúdo podendo também gerar dor pós-operatória e novamente requerer um segundo procedimento cirúrgico.

 

- Tempo de confecção: as cirurgias de cólica sempre representam um grande risco anestésico devido as alterações sistêmicas provocadas por elas. Neste contexto é importante o cirurgião ser o mais rápido possível para a realização da sutura intestinal, visando reduzir o tempo cirúrgico e melhorar o prognóstico.

 

        Pensando em todos esses desafios que o médico veterinário, ou o estudante de veterinária, vão enfrentar durante uma cirurgia de cólica, a Eqquality criou o curso   teórico-prático de suturas intestinais. Nele os participantes poderão treinar em peças como superar essas dificuldades e executar os procedimentos de enterotomia, enterorrafia, enterectomia e enteroanastomose, que foram citados neste texto, com precisão e segurança em seus futuros pacientes. Acesse a página dos cursos e saiba mais.

AUTORIA

Murillo Martinez Matheus - Mestrando em Cirurgia Veterinária - FMVZ - USP 

 

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