MORMO

INTRODUÇÃO

             O mormo é uma enfermidade infectocontagiosa, de caráter agudo ou crônico que acomete principalmente os equídeos, podendo também acometer o homem, os carnívoros e eventualmente os pequenos ruminantes (d´AUTHEVILLE, 1982). No passado, o mormo ocorria em todo o mundo devido à ampla utilização dos equídeos, mas com a diminuição gradual em seu uso para transporte assim como para o trabalho e os procedimentos de combate às principais zoonoses, na maioria dos países, fez com que sua incidência diminuísse (ACHA & SZYFRES, 1986).


        De acordo com os dados revisados por Langenegger et al. (1960), no Brasil a doença foi descrita pela primeira vez em 1811, introduzida provavelmente por animais infectados importados da Europa pertence à lista de doenças passivas das ações de defesa sanitária, de sacrifício obrigatório, sem indenização (MAPA,1992).


         É uma zoonose de ocorrência rara em humanos, mas quando o acomete, normalmente é fatal. É uma doença ocupacional que acomete principalmente tratadores, veterinários e trabalhadores de laboratório (NOGUEIRA, 2013).

ETIOLOGIA

         O agente epidemiológico é uma bactéria gram-negativa aeróbia, anaeróbia facultativa (DIEHL, 2013), Burkholderia mallei, que ao longo dos anos recebeu diferentes denominações. Em 1980, foi incluída na “Approved Lists of Bacterial Names” como Pseudomonas mallei, mas foi reclassificada no gênero Burkholderia sp. (LEOPOLDINO et al., 2009). 

TRANSMISSÃO

         Animais infectados e portadores assintomáticos são importantes fontes de infecção. A principal via de infecção é a digestiva, podendo ocorrer também pelas vias respiratórias, genital e cutânea (LEOPOLDINO et al., 2009). 


            A disseminação do microorganismo no ambiente ocorre pelos alimentos, água e fômites, principalmente cochos e bebedouros. Raramente, a forma cutânea da infecção decorre do contato direto com ferimentos ou por utensílios usados na monta dos animais. (RADOSTITS et al., 2002).
Lesões pulmonares crônicas, que se rompem nos brônquios e infectam as vias aéreas superiores e secreções orais e nasais, representam a mais importante via de excreção da B. mallei (RADOSTITS et al., 2002). 


            O agente penetra a mucosa intestinal e em seguida, atinge a corrente sanguínea, fazendo septicemia (forma aguda) e posteriormente, bacteremia (forma crônica). O microorganismo localiza-se nos pulmões, mas a pele e a mucosa nasal também são sítios comuns de localização. (LEOPOLDINO et al., 2009).


        Em humanos, a doença normalmente é adquirida através de contato direto da pele ou mucosas com secreções ou tecidos dos animais infectados. (NOGUEIRA, 2013)

SINAIS CLÍNICOS

       São descritas três apresentações clínicas: mormo nasal, pulmonar e cutâneo, podendo ocorrer, num mesmo indivíduo, mais de uma forma clínica simultaneamente.


       No mormo nasal, os animais podem apresentar, ao início, uma descarga nasal serosa, unilateral, subsequentemente purulenta fluida de coloração amarelo-escura e purulento-hemorrágica. A forma pulmonar caracteriza-se por uma pneumonia lobular, ocorrendo, algumas vezes, formação de abcessos. O mormo cutâneo é caracterizado pela formação de abcessos subcutâneos, aumento dos linfonodos e aumento do volume dos vasos linfáticos que os interligam, dando um aspecto de rosário. Podem ocorrer, ainda, edema e ulcerações, principalmente nos membros posteriores (SANTOS et al., 2001).


        Outros animais, na fase inicial da doença, podem não apresentar quaisquer desses sinais clínicos (SANTOS, 2000a). A doença, segundo BAZARGANI et al. (1996) e SANTOS (2000a), pode se manifestar na forma aguda, na qual, os animais apresentam apenas um edema de peito e em 24 a 48h morrem. Pode, também, manifestar-se de modo crônico, principalmente no cavalo, e o animal pode ser um portador inaparente, e, ainda, de modo geral, ocorre queda de rendimento no trabalho, tosse, febre, apatia e emagrecimento, chamando a atenção, nesses últimos casos, a manutenção do apetite dos animais doentes (SANTOS, 2000a).


      No ser humano podem ocorrer quatro formas de manifestação da doença: pulmonar, generalizada ou septicêmica, localizada e crônica. Os sinais clínicos dependem da forma de manifestação da doença, mas de maneira geral são semelhantes aos apresentados pelos animais. Quando manifestada da forma pulmonar ou generalizada é fatal em 95% dos casos (NOGUEIRA, 2013).

DIAGNÓSTICO

           O diagnóstico do mormo consiste na associação dos aspectos clínico – epidemiológicos, anatomohistopatológicos, isolamento bacteriano, inoculação em animais de laboratório, reação imunoalérgica (maleinização), testes sorológicos como a fixação do complemento e ELISA (MOTA et al., 2000). Porém, oficialmente, para fins de diagnóstico e de controle da enfermidade, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento recomenda somente a realização dos testes de Fixação do Complemento (FC) e maleinização (MAPA, 2003). Todos os testes sorológicos podem apresentar resultados imprecisos por até seis semanas após a realização do teste da maleína. (MOTA, 2006).


           Em relação aos testes laboratoriais a serem empregados para o diagnóstico do mormo, deverão ser feitos: testes para fins de trânsito de equídeos serão realizados em laboratórios credenciados; para fins de investigação epidemiológica de suspeitas ou para a eliminação de focos serão realizados em laboratórios oficiais ou públicos credenciados pelo Serviço Veterinário Oficial (SVO); A colheita de amostras para os testes com finalidade de trânsito de equídeos deve ser realizada somente por médico veterinário habilitado (MAPA, 2018)

       Considera-se médico veterinário habilitado o profissional devidamente registrado no respectivo Conselho Regional de Medicina Veterinária e que tenha sido aprovado em capacitação específica sobre o Programa Nacional de Sanidade dos Equídeos (PNSE) oferecida e organizada pelo Serviço Veterinário Oficial e é de responsabilidade do médico veterinário habilitado a identificação do animal e a colheita da amostra do sangue, o envio da amostra de soro ao laboratório credenciado, devidamente identificada, acondicionada e conservada, acompanhada de formulário para requisição de exame de mormo corretamente preenchido e a prestação de informações e atendimento às convocações do MAPA e dos Órgãos Executores de Sanidade Agropecuária (OESA) (MAPA, 2018)

TRATAMENTO

            Não há cura para o mormo e nem prevenção por vacinas, portanto não há tratamento eficaz para a eliminação do agente os animais portadores (MAPA, 2018).


          Já em humanos, o tratamento é feito à base de uma combinação de antibióticos e pode durar cerca de 6 meses (NOGUEIRA, 2013).

PREVENÇÃO

        O mormo acomete os equídeos (cavalos, asininos e muares) por meio da bactéria Burkholderia mallei, tem potencial zoonótico e não há cura nem prevenção por vacinas (MAPA, 2018).


       Qualquer caso suspeito de mormo é de notificação obrigatória ao SVO da UF onde se encontra o animal, em prazo não superior a 24 horas. Todo foco de mormo deverá ser obrigatoriamente eliminado, devendo ser feita a realização de eutanásia dos casos confirmados de mormo e a realização de testes de diagnóstico consecutivos de todos os equídeos da unidade epidemiológica, com intervalo de 21 a 30 dias entre as colheitas, com prazo máximo de 30 dias para a primeira, sendo: todos os equídeos das unidades epidemiológicas serão submetidos ao teste de triagem ou complementar, a critério do SVO; animais com resultado positivo no teste complementar; potros com idade inferior a 6 meses de idade, filhos de éguas positivas para mormo deverão ser examinados clinicamente e, caso não apresentem sintomas de mormo, devem ser mantidos isolados e submetidos a testes sorológicos ao completarem 6 meses de vida (MAPA, 2018).


          O trânsito interestadual e a participação de equídeos em aglomerações estão condicionados à apresentação de: documento oficial de trânsito animal, aprovado pelo MAPA (GTA); resultado negativo para mormo dentro do prazo de validade, contemplando todo o período da movimentação, do evento e o seu próximo destino e fica dispensado do teste de mormo o equídeo com idade inferior a 6 meses, desde que acompanhado da mãe e que esta apresente resultado negativo na prova de triagem ou complementar e procedentes de zonas livres de mormo (MAPA, 2018).


        Animais provenientes de unidades da federação onde se confirmou a presença do agente causador do mormo devem portar exame negativo para a doença original e dentro do prazo de validade (60 dias) para todas as finalidades. Animais destinados à exposição, leilão e esporte em UF onde se confirmou a presença do agente causador do mormo devem portar exame negativo, mesmo sendo proveniente de UF onde não se confirmou a presença do agente etiológico da doença. O retorno de animal que ingressou em UF onde se confirmou a presença de mormo, para UF onde não há confirmação da presença da doença, está condicionado à apresentação de exame negativo dentro do prazo de validade (Instrução Normativa Nº 24, de 5 de Abril de 2004) (MAPA, 2018).


          Para proteção dos rebanhos, os produtores devem sempre realizar bom manejo sanitário da tropa, comprando apenas animais de procedência conhecida, com exames negativos, participar apenas de eventos e aglomerações onde todos os animais tenham sido testados e, sobretudo, estar atento a quaisquer sintomas respiratórios e, ou, lesões cutâneas que os animais apresentem. No caso dessas evidências, é necessária comunicação ao serviço veterinário oficial estadual para adequada investigação epidemiológica e, caso constatado, eliminar o animal acometido pela doença, que é a fonte permanente de disseminação do mormo. (MAPA, 2018)

REFERÊNCIAS

ACHA, P.; SZYFRES, B.; Zoonis y enfermedades transmisibles comunes al hombre y a los animales. 2ª Ed. Organización Panamericana de La salud / OMS: Washinton, 1986, p.989. 


BAZARGA I, T T.; TADJBAKHSH, H.; BADIC, A.; ZAHRAEI, T The outbreak of glanders in some racehorses in the three stales of Iran. Journal of Equine Veterinary Science, v. 16, n. 6, p. 232-236, 1996.


D´ AUTHEVILLE, P.; Manual de Pronto Socorro para o Cavalo, Organiz. Andrei Editora Ltda, São Paulo, p. 98 – 99, 1982.


DIEHL, G.N.; Mormo, Informativo Técnico DDA, Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Agropecuária,  Rio Grande do Sul, nº6 - ano 04, 2013.
IN traz novas regras para o controle, erradicação e prevenção do mormo. MAPA. Disponível em: <http://www.agricultura.gov.br/noticias/in-traz-novas-regras-para-o-controle-erradicacao-e-prevencao-do-mormo>. Acesso em: 15 out. 2018.


JUBB, K. V. F.; KENNEDY, P. C.; PLAMER, N. Pathology of Domestic Animals. 4ª Ed., Academic Press, 1993, p. 640.


LANGENEGGER, J.; DÖBEREINER, J.; LIMA, A. C. Foco de mormo (Malleus) na região de Campos, estado do Rio de Janeiro. Arq. Inst. Bio. Anim. v. 3, p. 91 – 108, 1960. 


LEOPOLDINO, D.C. de Castro, et. al; Mormo em Equinos, Revista Científica de Medicina Veterinária, v.12, 2009. 


MAPA. Decreto n, 24,548 de 03 de julho de 1934. Brasília; Ministério da Agricultura, 1992.


MAPA. Diário Oficial da União, seção 1, ISSN 1677-7042, nº12, p.3-4, 2018


MAPA. Manual de Preenchimento para Emissão de Guia de Trânsito Animal de Equídeos, versão 18.0, p.8, 2018


MOTA, R. A.; Aspectos Etiopatológicos, Epidemiológicos e Clínicos do Mormo. Vet. E Zootec. V.13, n.2, p.117-124. 2006.


MOTA, R. A.; BRITO, M. F.; CASTRO, F. J. C.; MASSA, M. Mormo em eqüídeos nos estados de Pernambuco e Alagoas. Pesq. Vet. Bras. v. 20, n. 04, p. 155 – 159, 2000.


RADOSTITS, O. M.; GAY, C. C.; BLOOD, D. C.; HINCHCHCLIFF, K. W. Clinica Veterinária. 9ª Ed. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2002, p. 1737. 


SANTOS, F. L.; MANSO FILHO, H. C.; MENDONÇA, C. L. Monno. In; RJET- CORREA, F.; SCHILD, A. L.; LEMOS, R. A. Doenças de ruminantes e equinos. Campo Grande; Editora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. 2000a. p. 318-327.


SANTOS, F. L.; KERBER, C. E.; MANSO FILHO, H. C.; LYRA, T. M. P.: SOUZA, J. C. A.; MARQUES, S. R.; SILVA, H. V. Mormo I Glallders I Rev. educo contin. CRMV-SP I Continuous Education Journal CRMV-SP, São Paulo, volume 4, fascículo 3, p. 20 - 30, 2001.

AUTORIA

Heloysa da Silva Chedid - Graduanda em Medicina Veterinária - UNIP - SP

Murillo Martinez Matheus - Mestrando em Cirurgia Veterinária - FMVZ - USP 

 

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