BABESIOSE

INTRODUÇÃO

Babesiose equina (Piroplasmose, Theileriose ou Nutaliose equina) é uma enfermidade febril que acomete equídeos e de acordo com Baldani et al. (2011) no Brasil apresenta-se de forma endêmica, levando a significativas perdas econômicas.

A doença caracteriza-se em sua forma aguda, pelo surgimento de febre, às vezes de natureza intermitente, anemia, icterícia, hepato e esplenomegalia. Bilirrubinúria e hemoglobinúria podem estar presentes na fase final da doença. Apesar da gravidade da infecção aguda, a maioria dos animais desenvolve a forma crônica, podendo apresentar reagudizações em situações que determinem a diminuição da taxa de anticorpos, como stress. Esta condição provoca prejuízos diretos, representados principalmente pela queda de performance, moderada inapetência e perda de peso (BOTTEON et al., 2005).

Há evidências de que estas reagudizações ocorrem principalmente em animais mantidos sob-regime de confinamento, raramente atingindo animais criados a campo. A baixa infestação por carrapatos observada em cavalos confinados impede a manutenção de taxas de anticorpos suficientes para promover proteção adequada destes animais (BOTTEON et al., 2005).

 

 

ETIOLOGIA

A Babesiose equina é uma doença transmitida por carrapatos causada pelos protozoários parasitas intraeritrocíticos Babesia caballi ou Theileria equi, da Ordem Piroplasmida. A T. equi foi anteriormente designada como B. equi, mas convincente evidência evolutiva, morfológica, bioquímica e genética apoia a sua reclassificação como Theileria (OIE, 2009).

Ambos os organismos pertencem ao filo Apicomplexa e ordem Piroplasmida e podem em conjunto, infectar um animal ao mesmo tempo (SPICKLER et al., 2008).

Aproximadamente 14 espécies de carrapatos dos gêneros Dermacentor, Hyalomma e Rhipicephalus podem ser vetores para estes organismos (SPICKLER et al., 2008).

 

 

 

CICLO BIOLÓGICO DOS PROTOZOÁRIOS

Os esporozoítos infecciosos são transmitidos através da saliva do carrapato para o hospedeiro equídeo e uma vez dentro do hospedeiro, os esporozoítos de B. caballi invadem diretamente os eritrócitos, onde se multiplicam e se desenvolvem primeiro em trofozoítos e depois em merozoítos. Após a ruptura dos eritrócitos, os merozoítos são liberados e invadem outros eritrócitos (WISE, 2013).

A infecção inicial de T. equi é diferente, na medida em que invade os eritrócitos. Dentro das hemácias, os esporozoítos de T . equi se desenvolvem em grandes esquizontes e após aproximadamente 9 dias, os merozoítos são liberados e invadem os eritrócitos (WISE, 2013).

Para ambos os parasitas, a replicação assexual resulta em uma população em expansão de merozoítos e eritrócitos parasitados. Alguns merozoítos se desenvolvem em formas de gametócitos no sangue periférico equino. Após a ingestão de merozoítos (e / ou gametócitos) por um carrapato, os parasitas passam por reprodução sexual, com gametócitos se desenvolvendo em gametas, que se combinam para formar zigotos dentro do intestino médio do carrapato. Os zigotos se desenvolvem diferentemente dependendo das espécies de carrapatos e do parasita. Após um período de 6 a 24 dias, o desenvolvimento continuado resulta na presença de esporozoítos dentro da glândula salivar do carrapato (WISE, 2013).

 

 

TRANSMISSÃO

A transmissão ocorre pela inoculação de sua forma infectante (esporozoítos) no hospedeiro equino através da saliva do carrapato e também por via direta nos animais, por agulhas e seringas contaminadas ou por transfusões sanguíneas.

Dentro do carrapato, os zigotos de Babesia se multiplicam e são transmitidos por via transovariana (direto para os ovos dos carrapatos fêmeas). Quando uma larva, ninfa ou carrapato adulto infectado, parasita um novo hospedeiro, o parasita é estimulado a sofrer sua maturação final, permitindo que ele infecte o hospedeiro (SPICKLER et al., 2008).

Em contraste, os zigotos de Theileria não se multiplicam no carrapato e a transmissão transovariana de T. Equi é incerta ou ausente. Carrapatos que transmitem este protozoário podem ser infectados como larvas e transmitir a infecção como ninfas, ou eles podem ser infectados como ninfas e transmitir a infecção como adultos (transmissão transestadial). Em algumas espécies de carrapatos como Rhipicephalus microplus (anteriormente Boophilus microplus), a T. equi também pode ser transmitida pelo mesmo estágio de carrapato que adquiriu o parasita (transmissão intraestadial) (SPICKLER et al., 2008).

Uma vez no hospedeiro, os esporozoítos de T. equi infectam primeiro os leucócitos e posteriormente os eritrócitos, já os esporozoítos de B. caballi infectam diretamente os eritrócitos e então continuam seu ciclo, infectando cada vez mais hemácias.

EPIDEMIOLOGIA

O período de incubação do agente da Babesiose é de 12 a 19 dias quando causada por T. equi e, de 10 a 30 dias quando causada por B. Caballi (SPICKLER et al., 2008).

Os animais infectados podem permanecer portadores por longos períodos e agir como fontes de infecção para outros carrapatos (OIE, 2009).

Animais infectados com B. caballi podem ser portadores por até 4 anos e, com T. Equi, parecem ficar permanentemente infectados (SPICKLER et al., 2008).

SINAIS CLÍNICOS

Os sinais clínicos são variáveis ​​e muitas vezes inespecíficos. Infecções por T. equi tende a causar estágios mais graves da doença do que B. caballi. Em casos raros e perenes, os animais podem ser encontrados mortos ou em estágio terminal. Mais frequentemente, há sinais como febre, inapetência, mal-estar, dispnéia e mucosas ictéricas ou em alguns casos, podem estar pálidas. As fezes podem ser pequenas e secas, mas diarreia também já foi relatada. Anemia, trombocitopenia, icterícia, hemoglobinúria, sudorese, hemorragias petequiais e fraqueza também pode ser observado nos animais enfermos).

Casos subagudos apresentam sinais semelhantes, porém menos graves. A febre pode ser intermitente e os animais podem mostrar perda de peso, sinais de cólica leve e edema leve das regiões distais dos membros. A coloração das mucosas em casos subagudos pode ser rosa, rosa pálido ou amarela e podem haver também petéquias ou equimoses

Em casos crônicos, sinais comuns incluem inapetência leve, intolerância ao exercício, perda de peso, febre transitória e esplenomegalia (palpável ao exame retal)

Algumas éguas infectadas, incluindo éguas portadoras, podem abortar ou transmitir T. equi para seus descendentes. Potros infectados no útero podem ser fracos ao nascimento e desenvolver rapidamente anemia e icterícia grave. Em outros casos, esses potros podem ser portadores saudáveis

Portadores assintomáticos podem desenvolver sinais clínicos após imunossupressão ou exercício extenuante (SPICKLER et al., 2008).

 

 

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico pode ser realizado a partir dos sinais clínicos e da avaliação de alguns parâmetros do hemograma como contagem de eritrócitos, hematócrito e contagem diferencial de leucócitos, associado à detecção dos parasitas na circulação (FEIJÓ et al., 2013).

O método direto é realizado por meio da visualização dos protozoários em esfregaços de sangue ou pela investigação do DNA, através de técnicas de PCR.

O esfregaço de sangue consiste na visualização do parasito através de microscopia óptica. Durante o ciclo reprodutivo intraeritrocitário, a T. equi forma uma tétrade conhecida como Cruz de Malta, uma importante característica para o diagnóstico do agente. Entretanto, dificilmente obtém-se a visualização dos parasitas ao microscópio quando a parasitemia é baixa, sendo confundidos com artefatos da técnica devido ao seu tamanho pequeno. De acordo com Piotto (2006) deve-se preferencialmente proceder à colheita do sangue periférico após exercício, já que a contração esplênica auxilia na expulsão de hemácias parasitadas para a circulação. Outra forma de colheita de sangue para o esfregaço é a punção esplênica (FEIJÓ et al., 2013).

O PCR é um método rápido e versátil para a amplificação de segmentos de DNA, possibilitando ser aplicado a partir de uma molécula. O PCR é extremamente eficiente para diagnósticos de T. equi, já que se trata de um exame altamente específico. Apesar de possuir altíssima sensibilidade, a técnica de PCR tem apresentado resultados falso-negativos em portadores crônicos (FEIJÓ et al., 2013).

Como método indireto é feita a realização de testes sorológicos para o diagnóstico que baseiam-se na resposta imunológica do animal, sendo que o título de anticorpos específicos é diretamente relacionado com a multiplicação do parasito, mesmo durante baixas parasitemias. Entretanto, a sorologia não permite a conclusão se o animal é portador, já que os anticorpos permanecem na circulação por até quatro meses após a infecção. Outro fator importante é que os anticorpos anti T. equi e B. caballi são detectáveis, em média, 14 dias após a infecção inicial. Portanto, testes sorológicos podem fornecer resultados falso negativo se realizados na fase aguda da doença dentro deste período (FEIJÓ et al., 2013).

 

 

TRATAMENTO

As infecções por T. equi são mais difíceis de tratar do que as infecções por B. caballi (WISE, 2013).

A enfermidade possui melhor prognóstico quando diagnosticada e tratada na fase aguda, já que na fase crônica a eficácia do tratamento diminui. Como tratamento de escolha, atualmente destaca-se o dipropionato de imidocarb. (FEIJÓ et al., 2013).

A eliminação de B. caballi no seu estado portador é mais fácil quando comparada a T. equi, já que nenhum babesicida é eficiente na eliminação total da T. equi, porém podem ser eficazes no controle da doença. O dipropionato de imidocarb pertence ao grupo das carbanilidas, quando administrado por via subcutânea ou intramuscular atinge níveis terapêuticos plasmáticos rapidamente. Tem como mecanismo de ação impedir a síntese de ácido nucleico do parasita (FEIJÓ et al., 2013).

 

 

PREVENÇÃO

Reduzir a exposição de equídeos a carrapatos e fazer o controle e erradicação de carrapatos através da utilização de repelentes, acaricidas e pela inspeção regular dos animais e instalações (OIE, 2009).

Quaisquer animais positivos para Babesiose devem ser colocados em quarentena, separados dos demais cavalos da propriedade e de regiões com possíveis vetores.

Vários estudos avaliaram o uso potencial da vacinação para induzir a imunidade à infecção por B. caballi e T. equi, mas nenhuma vacina está disponível comercialmente (WISE, 2013).

AUTORIA
Heloysa da Silva Chedid - Graduanda em Medicina Veterinária - UNIP - SP


Murillo Martinez Matheus - Mestrando em Cirurgia Veterinária - FMVZ - USP

 

 

REFERÊNCIAS

 

BALDANI, C.D. et al. Production of recombinant EMA-1 protein and its application for the diagnosis of Theileria equi using an enzyme immunoassay in horses from São Paulo State, Brazil. Revista Brasileira Parasitologia Veterinária, v.20, n.1, p.54-60, 2011.

 

BOTTEON, P.T.L., BOTTEON, R.C.C.M., REIS, T.P., MASSARD, C.L. Babesiose em cavalos atletas portadores. Ciência Rural, Santa Maria, v35, n.5, p.1136-1140, set-out, 2005.

 

FEIJÓ, L.S., TORRES, A.J., NIZOLI, L.Q., SILVA, S.S., NOGUEIRA, C.E.W.; Piroplasmose Equina Parte 2: Métodos de Diagnóstico, Tratamento, Controle e Profilaxia (artigo de revisão). Universidade Federal de Pelotas. Janeiro, 2013.

 

OIE “EQUINE PIROPLASMOSIS - Aetiology Epidemiology Diagnosis Prevention and Control References”. 2009. Disponível em: < http://www.oie.int/fileadmin/Home/eng/Animal_Health_in_the_World/docs/pdf/Disease_cards/EQUINE_PRIOPLASMOSIS.pdf>. Acesso em: 11 de Dezembro de 2018.

PIOTTO, M.A. Diagnóstico da piroplasmose equina. Fórum Imizol de atualização em Piroplasmose equina, p.6-10, 2006.

 

SPICKLER, A.R.; Equine Piroplasmosis. The Center of Food Security & Public Health. p.1-4, Agosto 2008.

WISE, L.N., KAPPMEYER, R.H., KNOWLES, D.P.; Review of Equine Piroplasmosis. Journal of Veterinary Internal Medicine. Volume 27, Ed. 6, p. 1334-1346, Agosto, 2013.

 

Rua Potiguares, 265 - 2º Andar
Natalia (11) 99217-8701 | Murillo (11) 99349-7801
eqqualitycce@gmail.com
  • Cinza ícone do YouTube
  • Instagram Social Icon

© 2016 por Eqquality Clínica e Cirurgia de Equinos. Todos os direitos reservados. Orgulhosamente criado com Wix.com