Obstrução recorrente das vias aéreas (ORVA)

Obstrução recorrente das vias aéreas (ORVA), também conhecida como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), é a causa mais comum de tosse crônica em cavalos em países de clima temperado.

Caracterizada pela ausência de sinais de infecção aguda como febre ou leucocitose, duração de mais de 4 semanas, inflamação neutrofílica em secreção brônquica, hiper-responsividade das vias aéreas. (BARTON e GEHLEN, 2016).

A ORVA equina foi recentemente redefinida como uma doença semelhante à asma, principalmente devido a etiopatogenia, a resposta de hipersensibilidade tardia aos antígenos inalados, a inflamação afetando as vias aéreas inferiores. No entanto, a falta de uma resposta de fase aguda, a prevalência de inflamação e influxo de neutrófilos, o estreitamento das vias aéreas e a limitada reversibilidade brônquica em casos graves crônicos e recorrentes fazem a ORVA equina ser muito semelhante à DPOC humana (CALZETTA et al, 2017).

A doença já foi descrita em equinos em todo o mundo, recebendo maiores considerações naqueles animais que desempenham atividades atléticas, pois esses animais são submetidos a práticas de manejo que precipitam uma maior incidência da doença, além do fato que a enfermidade influenciar diretamente em sua performance (ROBINSON, 2001).

 

ETIOLOGIA

Além da predisposição genética, a exposição ao pó orgânico no ar, predominantemente através de estabulamento e o fornecimento de feno, desempenha um papel crucial na indução do fenótipo da doença.

Numerosos agentes inflamatórios estão presentes no pó, incluindo as endotoxinas bacterianas, mais de 50 espécies de bolores, peptidoglicanos, proteases, ácaros, resíduos vegetais e pós inorgânicos. A importância relativa de cada componente do pó orgânico na etiopatogenia da ORVA permanece desconhecida, porém, é provável que cada um contribua para uma extensão que varia com a gravidade da doença final.

O mecanismo pelo qual a inalação da poeira causa inflamação das vias aéreas ainda não está bem entendido, contudo existem evidências que há uma reação de hipersensibilidade específica a antígenos presentes na poeira (LAVOIE, 2001).

 

PATOGÊNIA

No início do curso da doença, a exposição aguda a um desafio (alérgeno) no ambiente pode contribuir para a destruição dos cílios superficiais e perda de células epiteliais, contribuindo para o edema submucoso e intercelular.

A doença bronquiolar aguda pode resultar em degeneração, necrose e esfoliação das células de Clara (célula exócrina bronquiolar).

A Doença crônica é caracterizada por regiões de proliferação de células progenitoras centralizadas em torno de focos de forma irregular.

A inflamação é caracterizada pelo influxo de neutrófilos no lúmen. Em contraste, os infiltrados submucosos são compostos por linfócitos, mastócitos, plasmócitos e, ocasionalmente, eosinófilos. Quando inflamação é grave, organização de folículos linfóides na submucosa

pode ser observado (DAVIS et al, 2002).

 

 

 

 

SINAIS CLÍNICOS

 

As primeiras manifestações da doença podem ser subclínicas. Tosse ocasional no início do exercício ou enquanto comer pode ser a única anormalidade presente.

Com exacerbação da doença, episódios de taquipnéia e duplo esforço expiratório.

Perda de peso significativa e a presença de uma "linha de esforço" acompanham a progressão da doença, especialmente em pacientes não tratados.

A linha de esforço representa hipertrofia dos músculos abdominais oblíquos externos, que foram recrutados para ajudar na expiração do ar aprisionado nas vias aéreas terminais. A natureza recorrente da doença é variável e os episódios duram de dias a semanas (DAVIS et al, 2002).

Apesar da hipersecreção e acúmulo de secreção mucopurulenta em toda a árvore traqueobrônquica, secreção nasal mucopurulenta é um achado inconsistente na ORVA, presumivelmente devido à deglutição regular de secreções  da traqueia que entram na faringe (PIRIE, 2013).

Secreção nasal e crepitação grossa pulmonar, quando presentes, estão associadas às infecções bacterianas secundárias (HOFFMAN, 2003).

 

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico é baseado principalmente no histórico (práticas de manejo) e sinais clínicos.

Em cavalos com doença menos grave, o lavado broncoalveolar (LBA) é uma valiosa ferramenta de diagnóstico para se obter amostras para exame citológico das vias aéreas inferiores. Amostras de aspirado transtraqueal são menos úteis para o diagnóstico da ORVA, porque as amostras de secreção das vias aéreas inferiores obtidas utilizando este método são contaminados por secreção traqueal.

Alterações citológicas clássicas incluem neutrofilia pulmonar (15-85% do total de células de LBA). Nem sempre existe boa correlação entre a gravidade das alterações observadas no LBA (porcentagem de neutrófilos) e a gravidade clínica da doença.

O exame endoscópico durante a obstrução das vias aéreas revela hiperemia traqueal, exsudados mucoides, e aumento da sensibilidade à tosse (DAVIS et al, 2002).

 

TRATAMENTO

O tratamento consiste em adoção de prática de manejo como fornecimento de feno molhado, cubos de feno ou pellet, que diminuam a exposição aos alérgenos.

Terapia farmacológica consiste na administração de prednisolona ou dexametasona (corticoides), que tem como objetivo reduzir a inflamação das vias aéreas.

Além do tratamento anti-inflamatório, alguns casos de ORVA também beneficiam da terapia broncodilatadora, seja como um "tratamento de resgate" em obstrução grave das vias aéreas, ou para melhorar a deposição de corticosteroides inalados.

O agonista β2 adrenérgico clenbuterol tem sido amplamente utilizado devido aos seus efeitos broncodilatadores. Provou, embora de curta duração, efeitos broncodilatadores quando administrados por via intravenosa, no entanto, esta rota de administração pode resultar em uma redução na pressão parcial de oxigenio (PaO2) no sangue arterial devido a um aumento no espaço morto funcional com ventilação alveolar retardada. Além de seu efeito broncodilatador, o clenbuterol também demonstrou exercer efeitos antinflamatórios.

Agonistas adrenérgicos β2 também demonstraram boa eficácia broncodilatadora quando

administrado por inalação. O albuterol em aerossol induz uma broncodilatação significativa e rápida em cavalos sintomáticos, sem efeitos colaterais sistêmicos (PIRIE, 2013). 

 

PROGNÓSTICO

Atualmente, não há cura para ORVA em cavalos. Com base na gravidade da doença observada na avaliação inicial, o prognóstico e a capacidade atlética variam. Por exemplo, cavalos com dispneia severa observada em repouso que não foram tratados durante o curso da doença podem desenvolver fibrose pulmonar e comprometimento permanente da função pulmonar.

Cavalos com uma redução relativamente branda nas capacidades de desempenho, diagnóstico precoce e implementação de terapia com corticosteroides e broncodilatadores podem permanecer atletas competitivos por vários anos.

O espectro de casos depende da gravidade da doença no cavalo individualmente, além de tratamento adequado (DAVIS et al, 2002).

 

PREVENÇÃO

A prevenção inclui esforços para minimizar a exposição de poeira orgânica através da melhoria da higiene do ar. Isso pode ser alcançado implementando mudanças no tipo de cama e forragem usada em estábulos ou mantendo o cavalo permanentemente no pasto, reduzindo assim a exposição a agentes transportados pelo ar.

A prática de imersão de feno em água antes da alimentação mostrou reduzir exposição à poeira respirável no ar subsequente.

Quando implementandas tais mudanças em cavalos estabulados, a consideração também deve ser dada a fazer alterações semelhantes a todos os estábulos vizinhos dentro de um espaço aéreo comum.

Além de minimizar a exposição as várias fontes de poeira orgânica, esforços devem ser feitos para otimizar ventilação, facilitando assim a remoção de poeira no ar dentro do estábulo (PIRIE, 2013).

 

AUTORIA 

Deni Rodrigues da Silva - Graduanda em Medicina Veterinária - Unicsul - SP

Murillo Martinez Matheus - Mestrando em Cirurgia Veterinária - FMVZ - USP

 

REFERENCIAS

 

BARTON, A. K.; GEHLEN H. Pulmonary Remodeling in Equine Asthma: What Do We Know about Mediators of Inflammation in the Horse. Equine Clinic. Berlin, Germany. Publicação científica... p.12, 2016

CALZETTA, P.; MATTEI, M.; ROGLIANI, P.; ALFONSI, M. P.; CITO, G.; PISTOCCHINI, E.; CAZZOLA, M.; MATERA, M.G. Pharmacological characterization of the interaction between tiotropium and olodaterol administered at 5:5 concentration-ratio in equine bronchi. COPD: Journal of Chronic Obstructive Pulmonary Disease. Publicação científica... p.8, 2017.

 

DAVIS, E.; RUSH, B. R. Equine recurrent airway obstruction: pathogenesis, diagnosis, and patient management. Vet Clin Equine. Elsevier Science, USA. Publicação científica... p.15, 2002.

 

HOFFMAN, A.M. Inflammatory Airway Diseases: Definitions and Diagnosis in the Performance Horse. In: ROBINSON, N.E. Current therapy in equine medicine, 5. St Louis: Saunders, 2003. p.412-417

 

LAVOIE, J.P. Update on equine therapeutics: inhalation therapy for equine heaves. Comp. Educ. Vet. Pract. v. 23, p. 475-477. 2001.

 

PIRIE, R.S. Recurrent airway obstruction: A review. Equine Veterinary Journal. Midlothian, UK. Publicação científica... p.13, 2013.

 

THOMASSIAN. A Enfermidades dos cavalos. São Paulo: livraria Varela, 1997, p. 253–285.

 

Rua Potiguares, 265 - 2º Andar
Natalia (11) 99217-8701 | Murillo (11) 99349-7801
eqqualitycce@gmail.com
  • Cinza ícone do YouTube
  • Instagram Social Icon

© 2016 por Eqquality Clínica e Cirurgia de Equinos. Todos os direitos reservados. Orgulhosamente criado com Wix.com