OSTEOARTRITE

A osteoartrite (OA), ou também conhecida, doença degenerativa das articulações, é o tipo mais comum de artrite em cavalos (assim como em muitos outros animais e seres humanos). Caracterizado por degeneração das articulações, alterações ósseas e nos tecidos adjacentes.

Estudo realizado em 2016 relatou que mais de 41% das claudicações foram motivadas pela OA, que foi também a segunda causa mais comum de claudicação em cavalos utilizados para a equitação de lazer, destacando que não é uma condição apenas de cavalos mais velhos (SLATER, 2016).

ETIOLOGIA

A OA é classificada em primária quando sua origem é desconhecida e secundária quando há fatores predisponentes como a ocorrência de defeitos de conformação e infecção articular (SCHMITZ et. al., 2010).

Existem 3 teorias para a etiologia da OA: (1) a cartilagem tem alterações nas suas propriedades biomecânicas e falha na resposta a cargas normais, (2) trauma recorrente do osso subcondral, com consequente microfratura ou lesão secundária da cartilagem, tanto por perda de suporte como por libertação de citocinas (Mcllwraith et al. 2012). E (3) baseia-se na atuação de forças mecânicas causando dano na cartilagem articular saudável, esta é a hipótese mais aceita (VEIGA, 2006).

 

PATOGENIA

O trauma e a inflamação crônica causam hipertrofia na membrana sinovial e aumento da vilos sinoviais. A cápsula articular e as estruturas de tecidos moles que envolvem a articulação danificam-se e o reparo é realizado por tecido conjuntivo fibroso. A degeneração ocorre quando substâncias inflamatórias são liberadas na cápsula articular, causando deterioração da cartilagem, do osso subjacente e fluido articular.(WALTER & RENBERG, 2005; BORGES, 2006).

 

A deterioração da cartilagem articular é caracterizada por divisões e fragmentação local e apresentam uma manifestação clínica, sendo que na maioria das vezes, há sinovites e efusão articular associada, apresentando-se clinicamente por dor e disfunção da articulação afetada (VEIGA, 2006).

 

SINAIS CLÍNICOS

Os sinais clínicos variam de acordo com o tipo de DAD e com o grau de inflamação. Em articulações de grande movimentação e com inflamação aguda há claudicação, aumento de temperatura, aumento de volume articular e dor à flexão. Em casos crônicos, tem-se aumento articular associado à deposição de tecido fibroso podendo haver espessamento ósseo com movimentação limitada, os sinais inflamatórios persistem em grau variável (McILWRAITH, 1994).

Nos animais de um ano ou mais velhos, os sinais clínicos comuns são a rigidez da articulação, reação à flexão e graus variáveis de claudicação repentinos ou graduais (RADOSTITS et.al., 2002).

DIAGNÓSTICO:

A capacidade de identificar a doença articular em um estágio inicial ou com precisão para definir doença e decidir o tratamento ideal ou prognóstico é uma necessidade clínica na prática equina (CLEGG, 2018).

O diagnóstico é feito através das manifestações clínicas, sinais locais e tipo de claudicação, que podem ser confirmadas flexionando a articulação durante aproximadamente 1-2 minutos, de forma forçada, o animal frequentemente intensifica a claudicação, e algumas vezes mal consegue apoiar o membro afetado (STASHAK,2002).

Um componente importante para o diagnóstico é a palpação, que deve ser feita de forma sistemática para que todas as estruturas sejam exploradas, a fim de detectar aumento de volume e/ou sensibilidade.

Deve também realizar movimentos passivos de flexão, extensão, adução, abdução, rotação e tração de forma a notar a existência de sensibilidade ou desconforto do animal podendo revelar a presença de dor (STASHAK,2002).

 

O uso de anestesia local diagnóstica é uma modalidade chave no diagnóstico de claudicação, e seu uso é especialmente importante no diagnóstico da doença da articulação. Em alguns casos fornece informações consistentes sobre a origem da claudicação (NEVES, 2010).

Também é utilizado como meio de diagnóstico para OA a radiografia, que pode revelar redução dos espaços articulares, osteítes rarefacientes ou periostites (THOMASSIAN, 2005).

A ultrassonografia define a espessura da cartilagem, arquitetura do canal vascular da cartilagem e recuo dianteiro da ossificação. Em animais com OA são observados acúmulos sinoviais, espessamento sinovial e de tecido capsular, dano de ligamentos intra-articular e periarticular, osteófitos, fragmentos osteocondrais e irregularidades na cartilagem do osso subcondral (CLEGG, 2018; NEVES, 2010).

Tem havido interesse contínuo por várias décadas no desenvolvimento de abordagens de biomarcadores bioquímicos para identificar doenças articulares. Estudos recentes investigaram os biomarcadores específicos (ELISA) para determinar os níveis de produto de clivagem da proteína da matriz. A proteína da matriz oligomérica da cartilagem (COMP) no líquido sinovial foi desenvolvida após a identificação proteômica inicial e imunolocalização de Neopéptidos COMP. Um aumento deste neopeptídeo COMP foi identificado em líquido sinovial de equinos com claudicação aguda e concluiu-se que a identificação desse neopeptídeo tem o potencial de identificar alterações na cartilagem articular na osteoartrite (CLEGG, 2018).

 

TRATAMENTO

O uso de corticosteroides como tratamento intra-articular é generalizada, mas ainda é um pouco controverso devido os efeitos colaterais potenciais e a capacidade desse fármaco potencialmente mascarar os sinais de lesão musculoesquelética grave (CLEGG, 2018).

 

Um estudo comparou o uso isolado da triancinolona com sua associação ao hialuronato. Os dois tratamentos tiveram uma taxa de sucesso semelhantes, porém, os cavalos tratados com a terapia combinada tiveram uma taxa de sucesso em curto prazo (três semanas), já o tratamento isolado obteve sucesso e em médio prazo (três meses).

O Firocoxibe é um anti-inflamatório não esteroidal (AINE) seletivo, razoavelmente seguro, mesmo para administração em longo prazo, mas efeitos adversos podem ser vistos quando administrados em excesso e/ou quando combinado com outro AINE. Vários estudos demonstraram que o firocoxibe é eficaz na redução da claudicação, com eficácia semelhante à fenilbutazona (CONTINO, 2018).

Outra opção de tratamento para OA é a Nutracêutica (combinação de nutrição com fármacos). Um estudo realizado utilizando suplemento contendo Resveratrol (extrato vegetal encontrado no vinho tinto) em conjunto ao corticosteroide intra-articular, resultou diminuição da claudicação aos quatro meses de tratamento. Este estudo apoia o uso do Resveratrol oral como terapêutica adjuvante para cavalos que não toleram a administração de AINEs e/ou em cavalos sujeitos a regulamentações esportivas (CONTINO, 2018).

A suplementação com glucosamina e condroitina é a combinação nutracêutica mais comumente recomendada para tratar a OA, devido seu uso poder ajudar na redução da dor (MILLIS e LEVINE, 2014).

Terapia com ondas de choque (Shockwave) é um tratamento não-invasivo, bem tolerado e com efeitos colaterais mínimos. Clinicamente, é útil particularmente para articulações de baixo movimento e no tratamento da enteseopatia, que pode ocorrer na inserção da cápsula articular.

Foi realizado um estudo utilizando duas formas de tratamento para osteoartrite. Nesse estudo foi realizado o tratamento com ondas de choque comparando com o tratamento utilizando glicosaminoglicano polissulfatado. Os animais tratados com ondas de choque apresentaram menor grau de claudicação (CONTINO, 2018).

A medicina regenerativa representa uma alternativa interessante para tratar OA, uma vez que tem o potencial de evitar mais danos à cartilagem e até mesmo reverter o dano sofrido.

Uso intra-articular de células-tronco mesenquimais (CTM) mostrou resultados promissores para melhorar o reparo da cartilagem.

Um outro estudo para avaliar a eficácia do CTM, no qual o tratamento sua associação com plasma alogênico equino (EAP), foi comparado com o tratamento utilizando placebo.

Combinação de CTMs e EAP resultou em diminuição da claudicação e derrame articular em comparação ao placebo após uma unica injeção intra-articular. Além disso, houve melhora na viscosidade do fluido sinovial e redução do número e/ou da gravidade das linhas de desgaste  da articulação (BROECKX et al., 2019).

 

Outros recursos disponíveis são técnicas fisioterápicas como, por exemplo, a hidroterapia. Os cavalos submetidos à hidroterapia tiveram aumento da simetria muscular, melhor controle, aumento da amplitude de movimento, entre outros resultados positivos CONTINO, 2018).

AUTORIA:

Murillo Martinez Matheus - Mestrando em Cirurgia Veterinária - FMVZ - USP

 

REFERENCIAS

 

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BORGES, N.F. Vídeo-artroscopia da articulação fêmoro- tíbio-patelar de cães antes e 21 dias após secção do ligamento cruzado cranial (estudo experimental. 2006. 41f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária), Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais, Belo Horizonte.

BROECKX,

BROECKX, Y.S.; MARTENS, A. M.; BERTONE, A.L.; BRANTEGEM, L.V.; DUCHATEAU, L.; HECKE, L.V.; DUMOULIN, M.; OOSTERLINCK, M.; CHIERS, K.; HUSSEN, H.; PILLE, F.; SPAAS, J.H.  The use of equine chondrogenic-induced mesenchymal stem cells as a treatment for osteoarthritis: A randomized, double-blinded, placebo-controlled proof-of-concept study. Equine Veterinary Journal.  Ghent University, Merelbeke, Belgium. 8, 2019.

CLEGG, P. Clinical insights: Recent developments in equine articular disease. Equine Veterinary Journal. Institute of Ageing and Chronic Disease, University of Liverpool,Neston, Cheshire, UK.3,  2018.

CONTINO, K.M. Management and Rehabilitation of Joint Disease in Sport Horse.Vet. ClinEquine.  Colorado StadeUniversity, Co- USA. P14, 2018.

 

LIPOWITZ, A.J. Afecções articular degenerativa. In: SLATTER, D. Manual de cirurgia de pequenos animais. 2ed. São Paulo: Manole, 1998. v.2, p.2266-2273.

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NEVES, F.S.P. Osteocondroseemcavalos. 2010. 47f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária), Universidade de Porto, Portugal, Porto

RADOSTITS, O.M.; GAY, C.C; BLOOD, D.C.; HINCHCLIFF, K.W. Um tratado de doenças dos bovines, suinos, caprinos e equinos, 9.ed- Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A., 2002. p. 507-510.

SCHMITZ, N.; LAVERTY, S.; KRAUS, V.B.; AIGNER, T. Basic methods in histopathology of joint tissues. OsteoarthritisandCartilage, Chicago, v.18, n.1, p.113-116, 2010.

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STASHAK, T. S., (2002b) Examen de lasclaudicaciones, 3. In Adams: Claudicacionesen Equinos (5ta ed.). Inter-médica editorial. ISBN: 950-555-269-6, pp. 113, 118-120, 123-142, 163-164

THOMASSIAN,A.Enfermidades dos cavalos, 4.ed- São Paulo: livraria Varela, 2005. p.133-134.

VEIGA, A.C.R. Estudo retrospectivo de casuística, abrangendo metodologia diagnóstica da osteoartrite em equinos. 2006. 80. Dissertação (Mestrado em Clínica Veterinária), Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo

WALTER, C.; RENBERG, D. Pathophysiology and Management of arthritis. Veterinary Clinics Small animal practice. Philadelphia, v.35, n.1, p.1073-1091, 2005.

 

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